Devaneios do cotidiano
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Todo mundo tem uma história para contar
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Expresso.

Victor  Zequi
há 7 meses18 visualizações

São Paulo é um narco-estado que se desenvolveu às custas de um pózinho preto que os europeus gostavam de usar pra ficarem ligadões. Daí, como se isso não bastasse, viciou todos os seus habitantes na parada e criou uma espécie de "dependência cultural" pelo barato e essa adicção se espalhou por todo o território brasileiro, de forma que a primeira refeição do dia leva seu nome (e implica que existam outros rituais de uso: o da tarde, das cinco horas, da naite e da madrogada).

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Já os europeus continuam todos se coçando pelo negócio e a nata do estoque escorre toda pra lá. Em território brasileiro o povo já está tão grilado na onda que nem sabe diferenciar qualidades. Alguns estabelecimentos coam o produto na própria meia do caixa. Na Europa o cenário é outro, embora ainda achem que a especiaria vem da Índia. Idolatram o produto a tal ponto que batizaram suas casas de incineração de "coffee" shops (que não se enganem, só dão da verdinha).

É isso. E tem paulistano achando Pablo Escobar marqueteiro.

Non Dvcor, Dvco

fui; que o da tarde tá pronto.

Expresso.

O corriqueirismo do inesperado.

Victor  Zequi
há 8 meses19 visualizações

Eis que eu, bom paulistano que sou, sentava um dia à mesa da cozinha localizando e apontando meus próprios erros e inseguranças. Eram seis e pouco da manhã, e a faxineira ainda não tinha chegado em casa. Tive um instante de paz, nem mesmo acordei minha cachorra para não distrair-me de minha hipocondria. Era uma terça-feira. Eu comia castanhas sem sal e decidia qual banana apanhar da fruteira. Foi nesse cenário terrivelmente ordinário que percebi nunca ter olhado o sol nascer por inteiro.

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Para falar a verdade, pensei comigo mesmo, nem mesmo chegara a ver o sol se pôr por inteiro, como fazem os namorados e amantes no parque, adiando a separação que chegará: uma hora ou outra, sempre chegará.

Talvez até tenha visto o sol se pôr. Aliás, estava certo disso. Quantas vezes já não vi o sol se pondo? Mas quantas vezes, se é que houve uma só vez sequer, resolvi parar o que estava fazendo para me dedicar inteiramente a essa tarefa?

Levei as castanhas para a varanda e com elas, a banana mais bonita. Fiz meu café como de costume (espirrou um pouco na bancada, como de costume). E me sentei encarando a cidade e o sol nascendo. Estava escuro, mas menos escuro do que quando acordara. Nesse momento ainda pensava se ficaria ali por todo o nascer do dia, ou se me levantaria assim que o primeiro ônibus passasse. Parei de pensar. Percebi que não estava vendo o sol nascer. Estava divagando... Mas quando o café começou a percorrer minhas veias, que saltam à pele, passei a me concentrar mais na tarefa (o café, pode ser uma ótima alternativa à ritalina se você souber usá-lo).

Sob o céu escuro, surgia uma luz alaranjada, e por trás dessa, uma luz amarela. A paisagem parecia um quadro ainda em progresso. As pinceladas de luz davam às nuvens cores novas. Passei a me perguntar quanto tempo aquilo duraria, ou se de fato seria possível perceber, em tempo real, o sol subindo. Quando criança, sempre que via um relógio eu me perguntava como os ponteiros das horas e dos minutos se mexiam. Nunca conseguira flagrá-los em movimento. Minha mãe me contou que eles moviam, pouco a pouco, e então de repente quando você se dava conta, o ponteiro estava três minutos adiantados. Era um choque. O movimento é imperceptível se acompanhado o tempo todo a olho nú. Mas os ponteiros nunca param de andar.

A rua estava escura. Eu olhava para a quadra do colégio em frente ao meu apartamento e me perguntava quando a luz iria invadir o cenário e revelar as suas cores (a quadra era agora apenas um aglomerado de tons de cinzas, como se alguém tivesse diminuído a saturação quase até o mínimo possível em algum programa de edição de imagens). O céu ainda brilhava amarelo. Eu tomava o café. As nuvens, que antes eram brancas e levemente coloridas, agora eram como sombras em contraste com a luz que chegava. Eu olhava tudo atento. Por um segundo desviei o olhar, e comecei a pensar... Mas pensava no nascer do sol, no dia que estava por vir, na Terra que girava dia após dia, como se estivesse numa ladeira intergalática infinita. Não sabia aonde, precisamente, estava o sol. Só via a luz que emanava dele, como a mais elegante das mulheres emana um perfume inconfundível ao entrar pela porta principal de uma festa, desconsertando todos os outros perfumes, agora ofuscados. É assim também com todo os outros raios de luz criados pelo homem, que de pouco em pouco vão cedendo lugar à inconfundível luz solar. Eu mesmo, nem havia ousado ligar as luzes desde que tinha me levantado. Descasquei minha fruta e comi-a pela metade.

De repente, num piscar de olhos o dia surgiu. No meu menor descuido, a luz reinava suprema, e a noite recuava delicadamente pois compreendia que era esse o seu fim. Olhando mais para cima, pude ver a silhueta de nuvens que não estavam ali antes reveladas. O sol havia nascido (embora eu ainda não pudesse vê-lo), e assim como os ponteiros do relógio, fora de repente. Por um breve momento me senti irritado. Tinha perdido o sol nascer, do mesmo jeito que durante todos os anos de criança o giro dos ponteiros me passara em branco. Talvez isso não fosse mesmo pra mim. Ou talvez... seja exatamente assim que deva ser. Talvez o sol nascente deva mesmo passar despercebido, apenas para nos surpreender (como se a explosão de cores já não fosse suficientemente encantadora) então. A raiva cessou quando vi dois aviões se cruzando no céu. Um deles subia, em direção à noite, como quem corre atrás de um trem sabendo que é impossível alcançá-lo. O outro descia para o dia, como quem retorna da mais sombria e trevosa das guerras. Os dois se encontraram e por um momento eu poderia jurar que haviam se chocado. Por sorte – ou talvez por azar – eles passaram um pelo outro sem se encostarem.

Já era dia e eu percebi que não havia mais motivos para ficar ali. Afinal de contas, o segundo ônibus já ia passar. Voltando pela cozinha, olhei pela janela, para a outra fachada do apartamento, onde o Sol ainda não havia encostado. Pasmem: a manhã estava roxa.

Passei o resto do dia pensando no começo dele. E se algum dia, por mais absurdo que pareça (e por mais inevitável que seja) o dia resolva não nascer? Nesse caso, esse nem mesmo terá sido um dia e sim um não dia. Que evento estranho seria; acordar e não ver o sol nascer. Mesmo que nunca se tenha visto o sol surgir, certamente pararíamos tudo para vê-lo não nascer. Seria estranho, e não acreditaríamos no que nossos olhos veriam. Se falaria disso o dia todo: nas tevês, nos jornais, na internet... E se na manhã seguinte o dia não nascesse de novo, e na seguinte, e na outra, e depois daí em diante... Nós iríamos, pouco a pouco, esquecendo de vê-lo se esconder. Andaríamos tranquilamente pelas ruas escuras que agora seriam iluminadas todas as horas do dia (ou seriam, da noite?), indo para o trabalho, para a padaria ou mesmo até a esquina para esvaziar a bexiga dos cachorros. O dia não mais importaria para a gente, a não ser para alguns poucos e loucos poetas e pintores... Ou mesmo alguns cineastas, que agora sem a iluminação natural do dia sofreriam em busca de bons diretores de fotografia. E assim viveríamos um dia após o outro como o homem tem feito desde que se conhece por homem, pouco importando se o sol nascerá ou não ou se o vizinho da rua de baixo passa fome aos finais de semana.

Até que certa manhã, depois de toda essa escuridão, o Sol resolveria nascer de novo. E então, todos largariam seus carros, seus livros, suas xícaras de café, e não se falaria de mais nada na televisão, rádio ou internet a não ser da hora em que uma faísca de luz de milhares de cores brilhou no céu e o Sol nasceu, do mesmo jeito que ele nasceu hoje, para mim.

Bonito, não é?

Bom, agora se me dão licença, tenho que me retirar para a cozinha. Já são quase sete horas e como vocês bem sabem, ainda não cheguei a ver o sol se pondo. Algo me diz que vai ser ainda mais bonito do que hoje de manhã, talvez seja roxo. Só que dessa vez, espero não perdê-lo de vista mais uma vez enquanto dou uma mordida no meu pão com mortadela.

14/02/2017

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escrita por
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zequi
Não escrevo por dinheiro, mas bem que poderia...