Devaneios do cotidiano
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Todo mundo tem uma história para contar
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O corriqueirismo do inesperado.

Victor  Zequi
há 8 meses19 visualizações

Eis que eu, bom paulistano que sou, sentava um dia à mesa da cozinha localizando e apontando meus próprios erros e inseguranças. Eram seis e pouco da manhã, e a faxineira ainda não tinha chegado em casa. Tive um instante de paz, nem mesmo acordei minha cachorra para não distrair-me de minha hipocondria. Era uma terça-feira. Eu comia castanhas sem sal e decidia qual banana apanhar da fruteira. Foi nesse cenário terrivelmente ordinário que percebi nunca ter olhado o sol nascer por inteiro.

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Para falar a verdade, pensei comigo mesmo, nem mesmo chegara a ver o sol se pôr por inteiro, como fazem os namorados e amantes no parque, adiando a separação que chegará: uma hora ou outra, sempre chegará.

Talvez até tenha visto o sol se pôr. Aliás, estava certo disso. Quantas vezes já não vi o sol se pondo? Mas quantas vezes, se é que houve uma só vez sequer, resolvi parar o que estava fazendo para me dedicar inteiramente a essa tarefa?

Levei as castanhas para a varanda e com elas, a banana mais bonita. Fiz meu café como de costume (espirrou um pouco na bancada, como de costume). E me sentei encarando a cidade e o sol nascendo. Estava escuro, mas menos escuro do que quando acordara. Nesse momento ainda pensava se ficaria ali por todo o nascer do dia, ou se me levantaria assim que o primeiro ônibus passasse. Parei de pensar. Percebi que não estava vendo o sol nascer. Estava divagando... Mas quando o café começou a percorrer minhas veias, que saltam à pele, passei a me concentrar mais na tarefa (o café, pode ser uma ótima alternativa à ritalina se você souber usá-lo).

Sob o céu escuro, surgia uma luz alaranjada, e por trás dessa, uma luz amarela. A paisagem parecia um quadro ainda em progresso. As pinceladas de luz davam às nuvens cores novas. Passei a me perguntar quanto tempo aquilo duraria, ou se de fato seria possível perceber, em tempo real, o sol subindo. Quando criança, sempre que via um relógio eu me perguntava como os ponteiros das horas e dos minutos se mexiam. Nunca conseguira flagrá-los em movimento. Minha mãe me contou que eles moviam, pouco a pouco, e então de repente quando você se dava conta, o ponteiro estava três minutos adiantados. Era um choque. O movimento é imperceptível se acompanhado o tempo todo a olho nú. Mas os ponteiros nunca param de andar.

A rua estava escura. Eu olhava para a quadra do colégio em frente ao meu apartamento e me perguntava quando a luz iria invadir o cenário e revelar as suas cores (a quadra era agora apenas um aglomerado de tons de cinzas, como se alguém tivesse diminuído a saturação quase até o mínimo possível em algum programa de edição de imagens). O céu ainda brilhava amarelo. Eu tomava o café. As nuvens, que antes eram brancas e levemente coloridas, agora eram como sombras em contraste com a luz que chegava. Eu olhava tudo atento. Por um segundo desviei o olhar, e comecei a pensar... Mas pensava no nascer do sol, no dia que estava por vir, na Terra que girava dia após dia, como se estivesse numa ladeira intergalática infinita. Não sabia aonde, precisamente, estava o sol. Só via a luz que emanava dele, como a mais elegante das mulheres emana um perfume inconfundível ao entrar pela porta principal de uma festa, desconsertando todos os outros perfumes, agora ofuscados. É assim também com todo os outros raios de luz criados pelo homem, que de pouco em pouco vão cedendo lugar à inconfundível luz solar. Eu mesmo, nem havia ousado ligar as luzes desde que tinha me levantado. Descasquei minha fruta e comi-a pela metade.

De repente, num piscar de olhos o dia surgiu. No meu menor descuido, a luz reinava suprema, e a noite recuava delicadamente pois compreendia que era esse o seu fim. Olhando mais para cima, pude ver a silhueta de nuvens que não estavam ali antes reveladas. O sol havia nascido (embora eu ainda não pudesse vê-lo), e assim como os ponteiros do relógio, fora de repente. Por um breve momento me senti irritado. Tinha perdido o sol nascer, do mesmo jeito que durante todos os anos de criança o giro dos ponteiros me passara em branco. Talvez isso não fosse mesmo pra mim. Ou talvez... seja exatamente assim que deva ser. Talvez o sol nascente deva mesmo passar despercebido, apenas para nos surpreender (como se a explosão de cores já não fosse suficientemente encantadora) então. A raiva cessou quando vi dois aviões se cruzando no céu. Um deles subia, em direção à noite, como quem corre atrás de um trem sabendo que é impossível alcançá-lo. O outro descia para o dia, como quem retorna da mais sombria e trevosa das guerras. Os dois se encontraram e por um momento eu poderia jurar que haviam se chocado. Por sorte – ou talvez por azar – eles passaram um pelo outro sem se encostarem.

Já era dia e eu percebi que não havia mais motivos para ficar ali. Afinal de contas, o segundo ônibus já ia passar. Voltando pela cozinha, olhei pela janela, para a outra fachada do apartamento, onde o Sol ainda não havia encostado. Pasmem: a manhã estava roxa.

Passei o resto do dia pensando no começo dele. E se algum dia, por mais absurdo que pareça (e por mais inevitável que seja) o dia resolva não nascer? Nesse caso, esse nem mesmo terá sido um dia e sim um não dia. Que evento estranho seria; acordar e não ver o sol nascer. Mesmo que nunca se tenha visto o sol surgir, certamente pararíamos tudo para vê-lo não nascer. Seria estranho, e não acreditaríamos no que nossos olhos veriam. Se falaria disso o dia todo: nas tevês, nos jornais, na internet... E se na manhã seguinte o dia não nascesse de novo, e na seguinte, e na outra, e depois daí em diante... Nós iríamos, pouco a pouco, esquecendo de vê-lo se esconder. Andaríamos tranquilamente pelas ruas escuras que agora seriam iluminadas todas as horas do dia (ou seriam, da noite?), indo para o trabalho, para a padaria ou mesmo até a esquina para esvaziar a bexiga dos cachorros. O dia não mais importaria para a gente, a não ser para alguns poucos e loucos poetas e pintores... Ou mesmo alguns cineastas, que agora sem a iluminação natural do dia sofreriam em busca de bons diretores de fotografia. E assim viveríamos um dia após o outro como o homem tem feito desde que se conhece por homem, pouco importando se o sol nascerá ou não ou se o vizinho da rua de baixo passa fome aos finais de semana.

Até que certa manhã, depois de toda essa escuridão, o Sol resolveria nascer de novo. E então, todos largariam seus carros, seus livros, suas xícaras de café, e não se falaria de mais nada na televisão, rádio ou internet a não ser da hora em que uma faísca de luz de milhares de cores brilhou no céu e o Sol nasceu, do mesmo jeito que ele nasceu hoje, para mim.

Bonito, não é?

Bom, agora se me dão licença, tenho que me retirar para a cozinha. Já são quase sete horas e como vocês bem sabem, ainda não cheguei a ver o sol se pondo. Algo me diz que vai ser ainda mais bonito do que hoje de manhã, talvez seja roxo. Só que dessa vez, espero não perdê-lo de vista mais uma vez enquanto dou uma mordida no meu pão com mortadela.

14/02/2017

Astro-lógica

Victor  Zequi
há 9 meses8 visualizações

— Departamento de publicidade da revista Horóscopo Popular, boa tarde! Com quem eu falo?

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— Boa tarde! Aqui é o Diego Caruso, mídia da AdJá... Falei com o Flávio outro dia, ficamos de acertar direitinho a publicação

— Você anotou o número do protocolo?

— Protocolo? Tinha um número de protocolo?

— Brincadeirinha... sem protocolo. Só estava ganhando tempo para abrir os arquivos aqui no computador. Os prints foram todos aprovados para publicação, só falta definir a edição que vai ser carimbada. Para quando é a campanha mesmo?

— Estávamos pensando em algo lá para a quarta semana de março. Umas duas semanas antes da páscoa.

— Sim... estou vendo aqui. Temos espaço para anunciar. Edição nº345

— Perfeito... nesse caso, você poderia me mandar o orçamento por e-mail?

— Claro.

...

— Alô?

— Departamento de publicidade da revista Horóscopo Popular, boa tarde! Com quem eu falo?

— Sou eu, pô. Diego. Acabamos de falar.

— Ah sim, mas é claro, Diego... posso ajudar?

— Olha meu, eu tava olhando aqui e... são 780 mil reais pela tiragem?

— 780 mil novecentos e noventa, sim senhor.

— Porra meu! Como assim? Vocês viraram a Globo agora e eu não tô sabendo?

— Como é, senhor?

— 780 mil contos pra uma tiragem da revista? Vocês ficaram doidos? É muita grana, não tem como. Esse valor tá correto?

— Diego, se você quiser anunciar na primeira semana de março, o preço é um pouco mais baixo...

— Não dá porra... tem que ser na quarta. Estourando na terceira semana.

— A segunda e a terceira semana já estão sem espaço para novos anunciantes.

— Porra... Pera aí. Me diz aí, qual é o valor pra primeira semana então?

— Só um momento senhor...

...

— Para a primeira semana de março, 240.000 reais.

— Como?!

— Duzentos e quarenta mil, senhor.

— Meu filho, como assim? Que diferença absurda é essa? É quase meio milhão de reais a menos que a quarta semana.

— Esses são os valores.

— Meu Deus... Qual é a justificativa pra isso?

— Calendário especial, oras.

— O quê? Só por que uma tá 3 semanas mais perto da páscoa?

— Também, sim senhor. Isso ajuda a aumentar um pouco o valor do anúncio mesmo.

— Mas 500 mil contos? Se fosse perto do ano novo eu entenderia, afinal é uma revista de horóscopo. Mas... páscoa, porra?

— Você entendeu errado senhor. É justamente por ser uma revista de horóscopo.

— O que você quer dizer?

— Senhor... Diego, certo?

— ...

— Diego, perceba que nesta data, todos os astros de água estarão alinhados. Você percebe? Todos os signos de água, e do outro lado, Áries e Escorpião, que são dois dos signos de fogo estarão com energias redobradas. Sabe o que isso significa? Junta-se a emoção da água com a proatividade dos signos de fogo e o que temos é um período de intensa disposição ao prazer, ao humor, à revitalização espiritual e material, e consequentemente, às compras. Isso sem falar da lua em virgem...

...

— Diego?

— Mas que PORRA é essa que você está falando?

— Senhor Diego... peço que mantenhamos o profissionalismo, por favor.

— Profissionalismo? Profissionalismo?! Você só pode estar de sacanagem, seu charlatão! Que absurdo, está querendo enganar essa agência? Saiba que não vai conseguir, e nós vamos manchar o nome de vocês no mercado para sempre! Era só o que me faltava... quer saber? Vocês têm sorte de não terem sido processados ainda.

— Nada do que fazemos é charlatanismo. Está tudo no código de ética da empresa. Se não se sente à vontade, pode reclamar ao PROCON, ao CONAR, aonde quiser.

— Pois é isso mesmo que vou fazer, agora mesmo! E a compra está cancelada. Para o inferno todos vocês! Mapa astral... era só o que me faltava!

— Seu ceticismo não vai te levar a lugar nenhum, senhor.

— Ceticismo! Ah vá a merda!

...

— Conar, boa tarde. Com quem eu falo?

— Olha só, aqui é o Diego, e estou pê da vida com uma tentativa de contratar os serviços de uma certa empresinha de meia tigela! Os caras estão me cobrando a mais indevidamente e dão uma desculpa esfarrapada! Me pergunto com quantos mais não fizeram isso, e pior, quantas vezes este golpe já não deu certo! Cretinos.. você não acredita, minha cara, qual é o seu nome?

— Clara, senhor. O senhor poderia...

— Um absurdo Clara, isso sim! Com “a” maiúsculo. Mapa astral... tsc tsc tsc. Que vergonha, eu quero matar, matar esse...

— Senhor.

— ...desgraçado, isso sim. Está de gozação...

— Senhor...

— ... com a minha cara e a minha agência, se eu pudesse...

— Senhor!

— ... desculpe

— Poderia me explicar com calma a situação?

— Mas é claro.

...

— E resumidamente, foi isso que aconteceu. Você já deve estar imaginando a minha vontade de cuspir na cara desse ridículo, não é?

— Senhor Diego, você poderia me informar seu CPF por favor?

— Claro... claro, sim. Quatro, três, oito...

— Quatro.. três... oito.

— Sete, nove, quatro...

— Sete... nove... quatro?

— Zero, zero dois.

— Zero, zero, dois?

— Quatro cinco.

— Ok... só um minuto.

...

— Clara?

— Só um momentinho senhor.

— Não é por nada não, mas não seria o CNPJ da empresa que eu deveria passar?

— CPF.

— Mas a reclamação é em nome de todos os membros da agência, pode apostar!

— O CNPJ vem depois, senhor.

— Ah sim, mas é que...

— Senhor... Diego Caruso Souza, certo?

— Sim.

— Nascimento dia vinte e nove de março?

— De mil novecentos e oitenta.

— Certo. Só um minuto.

...

— Clara?

— Sim?

— Você está aí? Por que toda essa demora?

— Desculpe senhor, estava analisando.

— Analisando o quê?

— Seu mapa astral.

— O quê?!

— O mapa astral do seu nascimento.

—O QUÊ?!

— Veja, você é ariano, ascendente em capricórnio, lua em áries... Certamente está muito irritado. Você deve levar em consideração o fato que está entrando no seu inferno astral agora. Já consultou um terapeuta? Tenho um colega que pode amenizar um pouco a sua situação.

— Você ficou maluca, porra?! Que merda é essa que você está falando?

— Senhor, procure compreender... a si mesmo melhor, e lidará com os outros, inclusive com o seu problema no trabalho de uma maneira melhor. Veja seu horóscopo de hoje:

— Cale essa boca!

— “Não se deixe abalar por pressões e frustrações exteriores, a vida te reserva reviravoltas. É tempo de reconquistar.”

— Para o inferno com esse lixo! Quer saber? Vou ligar para o PROCON e denunciar o CONAR, ou melhor, só vou escrever uma carta para o CONAR pedindo a sua demissão!

— Com todo respeito senhor, quem é que lê cartas ainda hoje?

— Cretina!

...

— Diego.

— Chefe!

— Não quero você batendo o telefone assim nunca mais nesta agência. Venha até o meu escritório.

— Só um minuto chefe, preciso resolver uma coisa.

— Agora, Diego!

— Certo... certo. Uff!

...

— Posso pegar um cafézinho?

— Diego, sem cafézinho, eu vou ser curto e grosso. Você está demitido.

— ... Ah.. mas o quê?! Eu? Demit.. Mas como assim? O que eu fiz?!

— Não é nada pessoal. Seus serviços não são mais necessários nesta empresa. Pegue as suas coisas e vá embora até o final do dia.

— Você só pode estar de sacanagem!

— Se me dá licença, tenho uma reunião agora.

...

“Cretino, filho da mãe, o que aconteceu? Que dia de merda! Revista de merda, atendente de merda, chefe de merda! Por que, esse, livro, não, entra, na, merda, da caixa?!?! Argh! Entrou. Merda, vou-me embora daqui. Espero que ninguém tenha estacionado na saída da porra da garagem hoje. Que ódio!”

...

— Oi querido. Como foi o trabalho?

— Me dá o jornal!

— Por quê?

— Vou procurar emprego!

...

“Classificados, classificados... cadê, cadê essa porra? Faz tanto tempo que não procuro... esportes, não... atualidades, tirinhas, horóscopo...

Horóscopo? Deixa eu ler esta merda!

Hmm.. hmmm hmm..

‘Não se deixe abalar por pressões e frustrações exteriores, a vida te reserva reviravoltas. É tempo de reconquistar.’

Pffft!!!! Que besteira da porra. ‘Nin si dixi ibilir, i tempi di reconqistir’

Pfttt!!! Lixo! Que horror. Isso serviria para qualquer signo. Vamos ver aqui o de Libra.

‘Desavenças no trabalho podem acontecer esta semana. Esteja preparado para o pior. É tempo de se desapegar.’

Tempo... de... desapegar.

Trabalho.

‘Libra: 23 de setembro a 22 de outubro’

...

Hmmm.”

— Lú!

— Fala.

— Cadê o convite de aniversário de cinquenta anos daquele crápula do meu chefe?!

— Se não estiver no lixo... tá ali no escritório.

...

“Rogério convida você para comemorar seus cinquenta anos de idade no sábado, dia 30 de setembro”

“'30 de setembro'

‘Libra: 23 de setembro a 22 de outubro’

‘Desavenças no trabalho’

‘É tempo de desapegar’

‘Esteja preparado para o pior’

‘Trabalho’

...

‘Trabalho’”

— Energúmeno dos infernos!! Você me paga!!! Ignorante, serzinho ignóbil! Maldito seja! Vou matá-lo! Matá-lo com minhas próprias mãos! Tolo, vai afundar nesta empresa medíocre. Nunca mais quero pisar lá, nem para pegar meu bônus de demissão! Quero que se exploda! É uma questão de honra! Sou um homem ou sou um rato?! Sou um homem, o übermensch! Pelo menos, perto destes idiotas! Pro inferno com a publicidade, já estava farto disso mesmo, vou seguir meus sonhos agora. Vou ser roteirista! Não estudei mídia para acabar num escritóriozinho destes com o ar-condicionado ligado no dezenove todo-santo-dia! Quero sentir a brisa do mundo, o gosto da aventura, o cheiro do mar, vou viajar, vamos Luíza, vamos sair deste lugar, temos a vida inteira pela frente! Siga-me, vamos juntos, para o inferno com esta vida, vamos ser livres, finalmente, ao infinito, e além!!!!!!!!!

...

— Diego... você por aqui?

— Pois é Uly. Faz tempo né?

— Porra cara, você vai voltar?

— Não tem jeito... O Rogério me chamou, eu vim. Essa empresa precisa de mim.

— É... sei. Beleza cara, quer tomar um café?

— Senhor Diego, pode entrar!

— Agora não vai dar, mas a gente se vê depois cara.

...

— E então Diego. Pode sentar.

— Olha, Rogério, não tem jeito. Eu preciso desse trampo cara... Você não sabe o que é dividir o carro com a minha mulher, cara! A gente teve que vender o outro! A grana não tá entrando, é a crise, tá foda! Já viu o preço da cebola? A gente tá comendo arroz puro, porra!

— Diego, vou ser bem sincero com você. Te demiti em um momento de impulsividade, embora tivesse os meus motivos. A empresa está crescendo e notei que é bom ter você aqui por perto, além do mais, somos bons amigos. Nunca vou esquecer os favores que você me fez. Se um amigo bate à minha porta e precisa de ajuda, eu vou ajudá-lo, é claro.

— Eu entendo cara... perfeitamente. Você é o técnico, você quem dita as regras, eu sou só o seu atacante!

— É...

— O que foi?

— Quanto a isso, Diego, quero que você saiba... que fizemos algumas mudanças em relação ao pessoal do seu departamento.

— Fizeram? O quê?

— Não é nada demais, só achamos melhor deixar você fora da equipe da gerência por enquanto. Só enquanto nos readaptamos ao novo fluxo da agência.

— O quê? Mas como assim?! Sou o mesmo Diego de sempre cara!

— Diego... por favor.

— Sim. Claro... mas é claro, me desculpe. Olha, não precisa se preocupar, como eu disse, é você quem dita as regras. Estou disposto a a passar por isso, pelo menos nesse começo.

— Sim. No começo... coisa boba. Só alguns meses.

— Beleza... Mas e então, aonde eu vou trabalhar?

— Diego, esse trimestre quero que você fique responsável por supervisionar um dos nossos novos contratados de mídia. Rapaz esperto, ele. Mas ainda não tem a mesma noção de agência do que você. Quero que adapte ele à forma de se trabalhar numa agência.

— Com todo o respeito chefe, quero dizer, é claro que vocês devem ter seus motivos para contratar um novo rapaz, mas posso perguntar o por quê de investirem em um novato, que nem experiência na área tem?

— Porque o rapaz é um gênio, Diego. E além disso, contra fatos não há argumentos. Principalmente se os argumentos forem números, e esse rapaz já trouxe vários para a empresa.

— Trouxe algum cliente novo?

— Não, Diego. Foi logo depois que você saiu. Você não leu os jornais?

— Fiquei fora um tempo... viajando.

— Depois que você foi embora ligou um rapaz da revista Horóscopo Popular querendo falar com você. Assumi a chamada e ele me convenceu a anunciar na semana em que ocorreriam uns alinhamentos dos astros aí... coisa meio louca, tem a ver com astrologia, ele foi bem convincente. Eu também estava bem aberto a novas experiências, queria desapegar da agência antiga e dar uma cara nova ao ambiente de trabalho. Aceitei a proposta e... adivinha? Não é que funcionou?! Trouxemos um retorno de cinco milhões só por mídia impressa nos últimos cinco meses, uma loucura! Já estão até chamando o rapaz de bruxo, feiticeiro... vidente! Eu não sei se acredito muito nessas coisas mas difícil é não acreditar agora né?! Putz grilow! Rá rá! Toca aqui, estamos voando baixo no oceano corporativo rapaz. Iháa! Viena e Praga que me aguardem!!

...

— Você... contratou... aquele veado???? Da revista?!?!

— Ei Diego, fala baixo pô! Não quero ninguém aqui achando que somos homofóbicos. O rapaz disse que isso traz más energias.

— Energias?!?! Grrrrr. Ah vá à merda!

— Diego. Seu salário é o mesmo. É pegar ou largar. Eu sei que você precisa. Segura isso aqui, engole o choro, e vai atrás do moleque.

— Eu vou sim! Matar aquele desgraçado.

— Se controla. Ainda nem está na hora, você tem um compromisso agora.

— Ah é? O que?

— Nós... analisamos o seu mapa astral. É, o RH está fazendo isso agora. Acreditamos que seu signo pode... interferir um pouco na sua produtividade e relação com outros colegas de trabalho. Queremos trabalhar isso com você.

— Ah! Beleza... vou ter que fazer terapia agora, é isso?

— É... quase.

— Quase?

— O... senhor Krishnaëv Yu. Está esperando por você.

— Krishnoquê? Quem é este... fanfarrão?!

— O guru Krishnaëv é um dos colunistas da Horóscopo Popular. O rapaz sugeriu que... trouxéssemos ele para cá.

— Você só pode estar fodendo com a minha cara, Rogério!

— Diego... Diego, não seja tão duro assim. Abra um pouco sua mente... respire fundo, você vai ter uma boa conversa, vai se conhecer muito melhor, tenho certeza.

— Argh, diabos! Pro inferno. Estou indo... saco! Pra que lado é o consultório do doutor bóstão?

— Você já está familiarizado com o caminho...

— Como assim?

— E só seguir... caminho de sempre.

— O quê???? Vocês deram, a minha sala?! Para esse... Mela Cueca?!?!?!?!

— Mas é claro que não, Diego! É claro que não. Nós jamais faríamos uma coisa dessas. Veja, você só vai... dividir a sala com ele.

— Canalha!!!

— Isso é temporário! É só enquanto não alugamos o andar de cima... A expansão está prevista para daqui um ano... e pouco, com sorte oito meses! Estamos otimistas. Além do mais, acreditamos que vai ser bom tê-lo por perto. Assim ele pode se dedicar integralmente a você.

— Argh!!!!!!!!!!

— Não reclame de boca cheia Diego, os outros da empresa abririam mão do décimo terceiro para ter essa oportunidades. O guru tem poderes sobrenaturais... confie nele.

— Ah! Dane-se, estou indo lá. Vou tentar... não grampear a mão desse velho primata na mesa. Guru... Meu cu! Porra!!

— Diego! Espere, só mais uma coisa.

— O quê?!

— Não esqueça de jogar as cinzas no lixo.

— Cinzas?!

— É. Dos incensos... o guru não pode tocá-las. São as energias ruins.

...

— Diego por favor, pare de drama, você sabe muito bem que essas janelas não abrem... Diego. Diego! Alguém por favor chame a segurança?! Diego! Chega Diego, vamos pra casa! Chega por hoje, está tudo bem, vamos, me solte! Diego. Está me machucando, seu... merdinha! Segurança! Porra, alguém me ajuda aqui! Socorro! Diego, larga essa garrafa! É um single malt, pelo amor de Deus! Me custou trezentos reais! Diego! Chamem a polícia! Alguém abra a porta! Diego! Diego!! DiegooooooooooO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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escrita por
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zequi
Não escrevo por dinheiro, mas bem que poderia...