Devaneios do cotidiano
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Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Substantivos (im)próprios.

Victor  Zequi
há 8 meses2 visualizações

 Bruna fitava o garoto no outro canto da sala e acreditava – estava convicta – de que ele não tardaria em chamá-la para uma conversa. Já sabia, e planejava cuidadosamente o movimento dos olhos e que palavras usar quando o jovem, meio "alternativo" se aproximasse. Sabia que era do tipo "alternativo" pelo cabelo e dois anéis que usava nas mãos (dentre os quais nenhum se encaixava na categoria de aliança, pois o traje que usava e a maneira como falava eram dignos de alguém que não pode acreditar em um relacionamento monogâmico tradicional). O que dizer se o garoto viesse falar de política? Ele não falaria de política, mas... E quem o sabe? Talvez seja mesmo um "intelectual" destes e neste caso, que conversa atribuiria para agradá-lo? Logo buscou em seu repertório cultural algumas referências que pudesse usar para surpreender o garoto mas tão logo percebeu isso, e notou também que era mulher – e como era forte! – e não respirava para agradar a homem nenhum. Utilizou-se de todo seu ceticismo para justificar a persistência naquilo que nem sabia direito o que era, mas por relatos de amigas concluía ser um amor evidentemente livre e "anti-careta" (um amor gauche, que aqueles "de direita" não compreenderiam jamais).

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 "'Dizem', que toda paixão é meio boba, não? Me sinto boba por querer impressionar este rapaz, mas também sinto que farei a ele um favor (deixe-o pensar que me domina ainda que este seja o meu desejo por instinto). Continuo pensando com parênteses e devo levar isso ao meu psicólogo. Mas neste caso estou pensando demais. Devo me deixar levar pela bobagem e é assim que se apaixona."

 E se o rapaz perguntasse algo sobre o recente vazamento de áudios denunciando escândalos de corrupção? O que ela poderia responder? Sabia do ocorrido, evidentemente, mas agora pensava que deveria ter ouvido, de fato os áudios, para saber do que exatamente se tratavam. Na pior das hipóteses ela sorriria e concordaria com o que o rapaz dissesse. Certamente os dois teriam bases ideológicas parecidas (notou isso pelas gírias que o rapaz usava com os amigos) e não tardaria muito para que a conversa evoluísse para um beijo.

 De certa forma Bruna já nem se preocupava mais. Encheu o copo de Catuaba e o tomou de uma vez em dois goles. Depois encheu mais uma vez para garantir que não estaria desfalcada quando a conversa começasse. Pensou em acender um cigarro. Se o garoto gostasse de fumar (o que era provável, mas não evidente) lhe pediria um isqueiro, ou mesmo um isqueiro e um cigarro (ainda que tivesse os dois no bolso de dentro de seu paletó (que certamente comprou em um destes brechós de casas veganas ou em algum hostel da Faria Lima). Procurou em sua bolsa o maço de cigarros, mas antes que pudesse levá-los a sua boca cheia de batom vermelho-marilyn monroe (adorava o estilo retrô), foi surpreendida pelo garoto, que estava agora ao seu lado:

 — Ei, você acredita em monogamia?

 — Não! Mas já li Bauman... Quer ouvir um poema do Bukowski?

 E os dois se beijaram,

e se amaram por toda a eternidade, até a manhã seguinte.

Instante

Victor  Zequi
há 8 meses3 visualizações

 Ele sentava no banco de trás do carro, e se imaginasse suficientemente, parecia flutuar sentado por cima do asfalto da ruela que entraria na grande avenida, como se estivesse num carro invisível (assim como a nave da Mulher Maravilha) ou mesmo num nada invisível (um nada desprovido de um sistema motorizado, e sendo levado apenas pela força do pensamento – será possível coisa assim?)

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 Talvez não no mesmo mundo em que rapazecos pegam seus carros e afundam os pés na embreagem antes que as engrenagens entrem em colapso. Talvez em outra frequência, igualmente invisível e igualmente impossível.

 Mas logo isso lhe ocorreu pela cabeça e passou a encarar a rua com mais determinação ainda, através da janela que estava cheia de pingos da garoa que caía. Eram dez da manhã. De onde ele estava vindo, ou para onde seguia ainda permanece sendo um mistério. Mas no instante em que, por engano, seus olhos se encontraram com os de uma mulher na calçada (em frente a um cartório municipal), foi como se os dilemas do carro invisível cessassem quase que instantaneamente. Numa fração de um milionésimo de segundo, foi como se os olhos seus e os olhos dela se encaixassem perfeitamente, como as engrenagens do carro (visível ou invisível) ao mudar de marcha. E foi logo depois desse instante que ele piscou, não se sabe ao certo o porquê, se fora por vergonha, cansaço... O que importa verdadeiramente é que no instante em que fechou as pálpebras (também por uma fração enésima de segundo) surpreendeu-se, pois era como se os seus olhos continuassem abertos. A escuridão infinita da cegueira agora cedia lugar à mesma visão do encontro de olhares em sua cabeça. Via a mulher – e a calçada, e o cartório, e até os pingos da janela – mas via tudo isso parado no tempo, como uma fotografia que seu subconsciente acabara de tirar e agora era projetada em sua retina (ou será que as imagens que vemos de olhos fechados estão em outro lugar que não a retina?), uma fotografia do instante em que seus olhos se encontraram e que, agora, congelada em seus olhos fechados e combinada com o movimento do carro que percorria a ruela, provocava nele uma ilusão de ser eterno, de ser completo. De ser tudo e nada ao mesmo tempo.

 Estava apaixonado.

 Mas não se enganem. Não era a paixão pela troca de olhares, muito menos pela mulher que esperava do lado de fora do cartório. Estava apaixonado (e leia-se: fascinado) pela magia atemporal daquele momento, a mesma magia que torna real o protótipo do não-carro invisível e que o faz chegar mais sorridente aonde quer que esteja indo.

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escrita por
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zequi
Não escrevo por dinheiro, mas bem que poderia...