MULHERES

Instante

Victor  Zequi
Author
Victor Zequi

 Ele sentava no banco de trás do carro, e se imaginasse suficientemente, parecia flutuar sentado por cima do asfalto da ruela que entraria na grande avenida, como se estivesse num carro invisível (assim como a nave da Mulher Maravilha) ou mesmo num nada invisível (um nada desprovido de um sistema motorizado, e sendo levado apenas pela força do pensamento – será possível coisa assim?)

 Talvez não no mesmo mundo em que rapazecos pegam seus carros e afundam os pés na embreagem antes que as engrenagens entrem em colapso. Talvez em outra frequência, igualmente invisível e igualmente impossível.

 Mas logo isso lhe ocorreu pela cabeça e passou a encarar a rua com mais determinação ainda, através da janela que estava cheia de pingos da garoa que caía. Eram dez da manhã. De onde ele estava vindo, ou para onde seguia ainda permanece sendo um mistério. Mas no instante em que, por engano, seus olhos se encontraram com os de uma mulher na calçada (em frente a um cartório municipal), foi como se os dilemas do carro invisível cessassem quase que instantaneamente. Numa fração de um milionésimo de segundo, foi como se os olhos seus e os olhos dela se encaixassem perfeitamente, como as engrenagens do carro (visível ou invisível) ao mudar de marcha. E foi logo depois desse instante que ele piscou, não se sabe ao certo o porquê, se fora por vergonha, cansaço... O que importa verdadeiramente é que no instante em que fechou as pálpebras (também por uma fração enésima de segundo) surpreendeu-se, pois era como se os seus olhos continuassem abertos. A escuridão infinita da cegueira agora cedia lugar à mesma visão do encontro de olhares em sua cabeça. Via a mulher – e a calçada, e o cartório, e até os pingos da janela – mas via tudo isso parado no tempo, como uma fotografia que seu subconsciente acabara de tirar e agora era projetada em sua retina (ou será que as imagens que vemos de olhos fechados estão em outro lugar que não a retina?), uma fotografia do instante em que seus olhos se encontraram e que, agora, congelada em seus olhos fechados e combinada com o movimento do carro que percorria a ruela, provocava nele uma ilusão de ser eterno, de ser completo. De ser tudo e nada ao mesmo tempo.

 Estava apaixonado.

 Mas não se enganem. Não era a paixão pela troca de olhares, muito menos pela mulher que esperava do lado de fora do cartório. Estava apaixonado (e leia-se: fascinado) pela magia atemporal daquele momento, a mesma magia que torna real o protótipo do não-carro invisível e que o faz chegar mais sorridente aonde quer que esteja indo.