ARTES

Loving Vincent: A Pintura em Cinesia

Victor  Zequi
Author
Victor Zequi

Das telas de ateliê às telas do cinema, filme dá vida e movimento às obras do pintor pós-impressionista Van Gogh.

(artigo publicado na revista Cognito em julho de 2016, que pode ser lida na íntegra aqui: Cognito)

---

Loving Vincent: A Pintura em Cinesia

Se por um lado a vivência conturbada do pintor neerlandês Vincent Willem Van Gogh resultou na sua morte prematura e inesperada, por outro, todo esse caos contribuiu para o fascínio de milhares de pessoas em relação à sua vida e obra, que influenciou intensamente o mundo das artes. Foi esse o motivo que levou a pintora e animadora polonesa Dorota Kobiela a dirigir o longa-metragem pioneiro Loving Vincent que, pela primeira vez no cinema, contará a história do artista por meio de animações realizadas com telas a óleo. A proposta do filme é animar mais de 120 de seus mais renomados quadros e deixar que alguns dos personagens das obras contem a sua história.

A ideia surgiu de uma carta enviada por Vincent à seu irmão Theo, na qual escreveu que ‘‘não há melhor forma de se comunicar, se não pela pintura’’. Seguindo essas palavras, mais de 800 cartas escritas pelo artista foram analisadas para o desenvolvimento do enredo, que contará com a ajuda de 30 pintores de todo o mundo que irão pintar à mão, frame por frame, cerca de 56.800 telas seguindo a mesma técnica e estilo de Van Gogh, compondo cerca de 80 minutos de filme.

Antes do trabalho manual, alguns atores foram escalados para gravarem cenas em que interpretam os personagens das telas do pós-impressionista, entre eles Jerome Flynn, o Bronn de Game of Thrones, que interpreta o Dr. Paul Gachet, apaixonado por arte que tratou Vincent e diversos outros pintores da época, e que aparece em alguns de seus quadros. Somente depois disso que inicia-se o processo de pintura, seguindo as expressões do artista e as mudanças no ambiente, quadro por quadro.

O projeto, que é realizado por duas produtoras de filme em parceria, a Breakthru Films e Trademark Films, conta também com a produção de Hugh Welchman, britânico que já soma mais de 20 prêmios em festivais internacionais, incluindo o oscar de melhor animação em curta metragem, de 2008 por ‘‘Peter e o Lobo’’, que foi o que acabou aproximando-o da diretora polonesa. Após receber o prêmio, o Ministério da Cultura polonês convidou-o para fazer um filme sobre as músicas de Frédéric Chopin, e enquanto buscava animadores para ajudá-lo, conheceu Dorota. O produtor passou a trabalhar integralmente no projeto desde 2012, quando tomou conhecimento do mesmo.

Loving Vincent: A Pintura em Cinesia

Em 2014 foi criada uma campanha de sucesso no site Kickstarter, com o obetivo de arrecadar fundos para a concretização do filme. Da meta de 40.000£ foram arrecadadas 53.292£, de 796 apoiadores diferentes, e também recebeu o respeitável selo de ‘‘projetos que amamos’’ do time gerenciador do website. Além disso, artistas que trabalham com artes plásticas e estiverem dispostos a contribuir com o projeto, recebendo inclusive treinamento por parte da empresa, podem mandar seus portólios pelo site http://join.lovingvincent.com/#contact . No site também estão disponíveis diversos vídeos de making of. Estima-se que tudo deva ser concluído até setembro desse ano, e que o lançamento venha a acontecer em algum ponto de 2017.

Pode-se dizer que toda essa mobilização tem sim um certo caráter informativo, histórico; e que o filme busca, com um leve tom de documentário, contar a história de um dos maiores e mais influentes artistas que já passaram pela Terra. Entretanto, esse fato até torna-se pequeno diante da imensidão do projeto, que revela outro objetivo: um passional. Vincent Van Gogh sempre deixou clara a sua paixão pela arte. Nas cartas para o irmão (que foi seu verdadeiro herói), sempre detalhava o prazer em criar, e o orgulho que sentia de seu esforço. Vincent foi um homem que sempre acreditou no seu trabalho, enquanto poucos o fizeram. Seu desejo enquanto vivo, sempre fora o de poder tocar as pessoas com suas explosões policromáticas, queria que o mundo inteiro visse o que podia oferecer. Todos os envolvidos na criação do filme trabalham intensamente com o coração, dando voz a quem nunca pode tê-la e trazendo à vida suas obras. As pinturas de Van Gogh agora respiram, e de canto, o pintor esboça um sorriso discreto e orgulhoso em seus autorretratos. O sorriso de um homem que muito sofreu enquanto vivo, mas transcendeu sua arte pelo tempo somente para ter seus sonhos realizados hoje da maneira qual sempre esperou: verdadeira e autêntica.