ARTES

Substantivos (im)próprios.

Victor  Zequi
Author
Victor Zequi

 Bruna fitava o garoto no outro canto da sala e acreditava – estava convicta – de que ele não tardaria em chamá-la para uma conversa. Já sabia, e planejava cuidadosamente o movimento dos olhos e que palavras usar quando o jovem, meio "alternativo" se aproximasse. Sabia que era do tipo "alternativo" pelo cabelo e dois anéis que usava nas mãos (dentre os quais nenhum se encaixava na categoria de aliança, pois o traje que usava e a maneira como falava eram dignos de alguém que não pode acreditar em um relacionamento monogâmico tradicional). O que dizer se o garoto viesse falar de política? Ele não falaria de política, mas... E quem o sabe? Talvez seja mesmo um "intelectual" destes e neste caso, que conversa atribuiria para agradá-lo? Logo buscou em seu repertório cultural algumas referências que pudesse usar para surpreender o garoto mas tão logo percebeu isso, e notou também que era mulher – e como era forte! – e não respirava para agradar a homem nenhum. Utilizou-se de todo seu ceticismo para justificar a persistência naquilo que nem sabia direito o que era, mas por relatos de amigas concluía ser um amor evidentemente livre e "anti-careta" (um amor gauche, que aqueles "de direita" não compreenderiam jamais).

 "'Dizem', que toda paixão é meio boba, não? Me sinto boba por querer impressionar este rapaz, mas também sinto que farei a ele um favor (deixe-o pensar que me domina ainda que este seja o meu desejo por instinto). Continuo pensando com parênteses e devo levar isso ao meu psicólogo. Mas neste caso estou pensando demais. Devo me deixar levar pela bobagem e é assim que se apaixona."

 E se o rapaz perguntasse algo sobre o recente vazamento de áudios denunciando escândalos de corrupção? O que ela poderia responder? Sabia do ocorrido, evidentemente, mas agora pensava que deveria ter ouvido, de fato os áudios, para saber do que exatamente se tratavam. Na pior das hipóteses ela sorriria e concordaria com o que o rapaz dissesse. Certamente os dois teriam bases ideológicas parecidas (notou isso pelas gírias que o rapaz usava com os amigos) e não tardaria muito para que a conversa evoluísse para um beijo.

 De certa forma Bruna já nem se preocupava mais. Encheu o copo de Catuaba e o tomou de uma vez em dois goles. Depois encheu mais uma vez para garantir que não estaria desfalcada quando a conversa começasse. Pensou em acender um cigarro. Se o garoto gostasse de fumar (o que era provável, mas não evidente) lhe pediria um isqueiro, ou mesmo um isqueiro e um cigarro (ainda que tivesse os dois no bolso de dentro de seu paletó (que certamente comprou em um destes brechós de casas veganas ou em algum hostel da Faria Lima). Procurou em sua bolsa o maço de cigarros, mas antes que pudesse levá-los a sua boca cheia de batom vermelho-marilyn monroe (adorava o estilo retrô), foi surpreendida pelo garoto, que estava agora ao seu lado:

 — Ei, você acredita em monogamia?

 — Não! Mas já li Bauman... Quer ouvir um poema do Bukowski?

 E os dois se beijaram,

e se amaram por toda a eternidade, até a manhã seguinte.