Culpada

Sinto muito por sentir pouco.
Me desculpa.
Eu me entrego, senhor policial.
Crime hediondo,
inafiançável.
Últimas palavras? Não é pessoal.

Acusada
de usar
os outros.
Prisão perpétua, sem reclamar.
Assim eu não machuco ninguém
por nunca ter aprendido a amar.

Me entrego sim,
antes de ser denunciada.
Antes de aparecer no jornal.
Antes dos que a mim se entregaram
mandem prender.
Antes que eu vire marginal.

Transa em transe


Boca de um lado
Mão de outro
Saliva e dentes
Percorrendo o meu corpo

Você vai pra baixo e meus olhos sobem.
Você diz meu nome e meus olhos somem.

Toque quente,
me sinto vulcão.
Inconsequente
é gozar de paixão.

De você eu sinto fome
(minhas mãos não conseguem esconder)
Meu corpo agora é nosso.
Do resto
nos resta esquecer.

Seus olhos me comem enquanto eu te fodo e
seus olhos me fodem enquanto eu te
Fogo.

Hoje eu quero voltar pra casa e dormir sozinha

Hoje eu quero dormir sozinha.
Não porque não gosto do seu cheiro,
Não porque sua pele é áspera.

Quero voltar pra minha casa.
Colocar tudo em seu devido lugar,
Limpar o chão e abrir as janelas.

Não porque seus braços não me confortam
Não porque você não seja amável

Mas eu quero muito me enfiar no cobertor e saber que só tem eu no quarto.
Sozinha
Serena
Minha

Reescrevi um texto antigo

Eu sempre me orgulhei de ser uma pessoa que tira a maquiagem antes de dormir. Dessa vez não foi diferente: cheguei bêbada em casa e passei meu lenço umedecido na cara enquanto fazia xixi.
Estava quase jogando o danado fora quando ele me trouxe informações que eu estava tentando negar. Glitter. O seu glitter. Estava em mim.
Duas horas antes ele habitava suas maçãs do rosto, e apenas elas. Agora havia contaminado minha cara e eu estava vendo brilhos prateados em todo lugar...
Torci para que ninguém…

E S T A G N A D A

Mais um capítulo igual. Sinto que eu sou uma cronista empacada no mesmo enredo. Todos meus textos saem iguais. Os personagens até que mudam, o cenário também. Mas é sempre a mesma história, o mesmo final onde o eu lírico aceita sua solidão como algo inato, a mesma mensagem. Os mesmos agradecimentos. "À pessoa que eu achei que amei".
Eu só quero ter outras experiências. Sair da mesmice. Do combo padaria, faculdade, bar. Eu quero minhas borboletas de volta. Meu brilho no olho. Meu andar bobo. Quero…

Um brinde à pessoa que eu mais amei

Venha, se junte ao banquete
Um brinde a você.

Venha, se junte ao banquete
Por tudo que já passamos.
Um brinde a você

Um brinde a você,
Que prendeu meu cabelo em um rabo
Quando eu vomitei bêbada ou chorei abafado.

Se junte ao banquete por ter me aguentado
Quando comida era pesadelo e eu falava que já tinha jantado.

Aproveite o banquete
Por não ter me abandonado
Quando usufruiram do meu corpo
E logo me deixaram de lado.

Por ter me ensinado
A não aceitar estranhos em nossa casa,
Por ter medo quando eu me apaix…