Conheça a vida triste, secreta e repressiva dos médicos cubanos

Conheça a vida triste, secreta e repressiva dos médicos cubanos

Conheça a vida triste, secreta e repressiva dos médicos cubanos

Fotos: BBC

Cuba é conhecida mundialmente pelo programa social onde o governo envia auxílio médico para todo o planeta. Porém, praticamente ninguém conhece a realidade brutal na qual esses profissionais são obrigados a viver.

No Brasil, o programa Mais Médicos estava vigorando desde 2013 com milhares de médicos cubanos atuando em nosso território. No fim do ano passado, Jair Bolsonaro cancelou esse programa por não concordar com os termos do acordo feito pelo governo anterior.

Diversas pesquisas e depoimentos recentes revelam diversos segredos sobre o modo como os médicos cubanos precisam viver, muitos chamam isso de “pesadelo”.

O depoimento de alguns profissionais foi colhido pela BBC, e vamos contar um pouco sobre eles aqui. Uma das principais histórias é a de Dayli Coro, ela estudou incessantemente e dormia apenas três horas por dia para conseguir seu diploma.

O sonho de Dayli era trabalhar em Cuba, ajudando a população da qual saiu, porém, ela foi pressionada a entrar para o programa de missões internacionais, e acabou indo trabalhar na Venezuela.

Além da importante parte solidária, as missões internacionais cubanas geram muito dinheiro para o país, aproximadamente R$ 32 bilhões por ano. Há mais de 30 mil médicos cubanos espalhados pelo mundo, a maioria na África e América Latina.

Um dos motivos que fazem com que os profissionais participem do programa é o “alto salário” pago por ele. Se em Cuba Dayli ganharia US$ 15, no exterior seu salário poderia chegar a até US$ 325. Porém, o valor não passa de R$ 1500, o que pelo menos para nós, é muito pouco para um médico.

Isso acontece pois de acordo com o Prisioners Defenders, uma ONG que luta pelos direitos humanos, os médicos cubanos recebem entre 10 e 25% do salário pago pela nação contratante, todo o restante fica nas mãos do governo.

Dayli assinou voluntariamente um contrato para prestar serviços na Venezuela, mas não teve tempo de lê-lo e nem recebeu uma cópia. No fim de 2011, a médica foi enviada para a cidade de El Sombrero.

Na época com 20 e poucos anos, a médica se viu em meio a uma guerra, os números da violência no país batiam recorde e ela acabou se acostumando a trabalhar com uma arma apontada contra sua cabeça.

“Havia muitas quadrilhas. Quando elas brigavam entre si, levavam seus feridos a nós, porque o hospital venezuelano local tinha policiais fazendo a segurança e nós, não. Esses garotos levavam pacientes com 12, 15 balas no corpo, apontavam as armas e exigiam que a gente os salvasse. 'Se ele morrer, você morre'. Esse tipo de coisa acontecia diariamente. Era rotina”

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Desabafo dos médicos

O Cuban Prisioners Defenders divulgou um relatório onde mais de 40 médicos contam como é a vida que eles têm de levar trabalhando nessa situação. Dentre as afirmações, é possível constatar que:

  1. 89% não tinham conhecimento prévio de onde seriam alocados dentro do país de destino;
  2. 41% tiveram seus passaportes confiscados por uma autoridade cubana ao chegar ao país de destino;
  3. 91% disseram ter sido monitorados por agentes de segurança de Cuba durante a missão e pressionados a compartilhar informações sobre os colegas;
  4.  57% não se voluntariaram para aderir à missão, mas se sentiram obrigados a isso, enquanto 39% disseram que se sentiram fortemente pressionados a participar do programa internacional.

Também não é raro que os profissionais relatem casos de assédio e violência sexual, Uma médica que não teve seu nome divulgado afirmou que foi estuprada pelo coordenador de sua missão.

“Acordei numa noite com alguém cobrindo a minha boca. A médica no outro quarto estava gritando. Havia dois homens portando armas”. Sobre o tratamento que recebeu sobre o caso, ela disse “O foco era basicamente me fazer não contar para ninguém o que aconteceu”

Os profissionais também eram obrigados a atingir uma meta surreal de atendimento, e quando isso não ocorria, deviam falsificar pacientes, tudo para fazer com que o país ajudado pagasse um valor maior para os serviços prestados. Mais da metade dos médicos do relatório afirmaram que foram obrigados a falsificar informações.

“Não aceitei mentir. Se um paciente está pronto para receber alta e tomar medicamento oralmente, não vou interná-lo por cinco dias (para cumprir a meta). Não tenho como antecipar quantos pacientes com ataques cardíacos vou receber numa semana”

Dayli contou que os médicos são proibidos de manter qualquer contato não profissional com outras pessoas, aliás, havia um toque de recolher onde deviam voltar para as suas instalações. Todos os médicos eram fortemente vigiados, o intuito é de que eles não desertem, nem que contem para terceiros a repressão que sofrem.

“Ele costumava perguntar sobre meus colegas de casa e tinha uma rede de informantes locais que passavam qualquer informação que pudesse indicar possíveis desertores. Não nos era permitido tomar um drink com um venezuelano ou ir à casa de alguém que você salvou para ver como ela estava”

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Dayli conta que os médicos cubanos vivem praticamente uma censura

Além do mais, os médicos cubanos que trabalharam na Venezuela afirmaram que foram obrigados a persuadir os pacientes a votar em Nicolas Maduro, e que também tinham de dar remédios em troca de votos, além de terem de recusar atendimento a pessoas da oposição.

Depois de ser perseguida pelo governo Cubano, Dayli conseguiu exílio na Espanha, onde está até hoje.

“Queria ser uma médica em Cuba, mas tive que desistir. Não quer ser um risco para a minha família. Falei o que achava, e essa é a consequência. Eles querem soldados, não médicos.”

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