Dois anos sem Belchior: Um poeta em forma de músico

Antônio Carlos Belchior, ou somente Belchior, foi um cantor, compositor, e professor brasileiro. Embora tenha tido uma carreira sem tanta visibilidade na grande mídia, o cearense é considerado por muitos como o maior nome da MPB.

Competindo com nomes como Chico e Caetano, Belchior ficou meio marginalizado durante boa parte de sua carreira. Ele não queria se submeter aos “bons costumes” musicais, criando assim uma carreira solitária, mas grandiosa.

É possível lembrar de outros nomes que possuíram e ainda possuem o mesmo estilo de carreira que Belchior, Tom Zé por exemplo, é um artista fantástico, cortante e visceral, mas não é conhecido pelo grande público.

Porém, o nordestino não chegou a ser tão impactante quanto Belchior, embora também tenha seu mérito. Belchior tece em suas canções versos afiados, crus, e para muitas pessoas, intragáveis.

O rapaz latino-americano não abaixava a cabeça e cantava o que queria, sem ceder aos desejos de terceiros. Utópico, cínico, libertário e filosófico, Belchior viveu a vida que quis.

Ele não buscou a fama, não quis o luxo e nem o reconhecimento que certamente teria após todos os anos de carreira. Ao invés disso, Belchior decidiu optar pelo autoexílio e viver a própria vida.

A Alucinação

O álbum Alucinação é definitivamente o mais marcante da carreira de Belchior, aliás, talvez seja o álbum mais desafiador da história da música brasileira. O nordestino não canta, mas sim proclama verdades em um disco rude, pungente e devastador.

Faixas como “A Palo Seco” gritam contra a alma nos versos

(E eu quero é que esse canto torto / Feito faca, corte a carne de vocês)(E eu quero é que esse canto torto / Feito faca, corte a carne de vocês)(E eu quero é que esse canto torto / Feito faca, corte a carne de vocês)
. Além é claro de já mostrar o clássico amor à América do Sul, afinal, um tango argentino sempre cai melhor que o blues. Essas são as veias abertas da América Latina.

A palavra que dá nome ao disco também representa os versos poderosos da música. E além disso, clássicos como Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais também estão no disco.

"O poeta só é grande se sofrer"
Não existe uma alma no mundo que não sinta a paixão ardente e mortal de Coração Selvagem, nem mesmo uma que não se arrepie com o “Talvez eu morra jovem”:
(Mas quando você me amar / (Mas quando você me amar / 
Me abrace e me beije bem devagar / 
Que é para eu ter tempo / 
Tempo de me apaixonar / 
Tempo para ouvir o rádio no carro / 
Tempo para a turma do outro bairro ver e saber que eu te amo)Tempo para a turma do outro bairro ver e saber que eu te amo)

(
Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho / 
Deixem que eu decido a minha vida / 
Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol / 
Porque bate lá o meu coração)Porque bate lá o meu coração)

Belchior também fez uma música para John Lennon, e nos contou que a felicidade é uma arma quente:

Belchior conversa com nossa melancolia e diz que devemos sempre continuar em frente.
(E eu inda sou bem moço pra tanta tristeza/ 
Deixemos de coisas, cuidemos da vida / 
Senão chega a morte ou coisa parecida / 
E nos arrasta moço sem ter visto a vida)

De qualquer maneira, a tristeza de fato tomou conta do nordestino, assim como a maioria de seus admiradores, a felicidade não está por aqui.
(Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo / 
O mal que a força sempre faz / 
Não sou feliz, mas não sou mudo / 
Hoje eu canto muito mais)

Por fim, vamos apreciar uma de suas mais famosas músicas, provavelmente em um dos  seus últimos vídeos gravados oficialmente

(No presente, a mente, o corpo é diferente / 
E o passado é uma roupa que não nos serve mais)

Belchior foi um poeta intocável, inigualável e instigador. Somos privilegiados por termos este homem na história do nosso país, e para muitos, na história da própria vida.

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