Ninguém escreve ao Coronel e a angústia do esquecimento

Ninguém escreve ao Coronel e a angústia do esquecimento

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Ninguém escreve ao Coronel e a angústia do esquecimento

O colombiano Gabriel García Márquez, ou apenas Gabo, se tornou um dos escritores sul-americanos mais famosos do mundo e dono do clássico aclamado “Cem Anos de Solidão”. Mas muitos anos antes de lançar sua obra mais conhecida, ele escreveu o conto “Ninguém escreve ao Coronel”, minha leitura de fevereiro do Desafio TAG 1 Livro por Mês.

O conto foi escrito em 1957, quando Gabo, aos 29 anos, atravessava dificuldades financeiras. Talvez por isso o protagonista desta história estivesse passando pela mesma situação: ele é chamado de Coronel (pois é, ele não tem nome. Ou melhor, seu nome é seu título), e foi um antigo revolucionário que combateu na Guerra dos Mil Dias da Colômbia, uma das guerras civis mais sanguinárias da América do Sul. Depois da Guerra, eleições fraudulentas permitiram que o Partido Conservador Colombiano permanecesse no poder e gerasse uma grave crise econômica, que ressoou por todo o território da Colômbia por muitos e muitos anos.

É nesse cenário que a história se passa. Todas as sextas-feiras, o Coronel toma um bom banho, põe seu melhor terno, e se dirige à agência dos correios da pobre aldeia onde vive com sua esposa. Lá, ele espera que a lancha do carteiro desembarque, na esperança de receber uma carta anunciando sua tão esperada aposentadoria. Mas há 33 anos tudo que ele consegue é obter a mesma resposta do indiferente carteiro: “Ninguém escreve ao Coronel” – coisa que já esperamos devido ao título do livro. Até aí, sem surpresas.

Mas ao longo do conto descobrimos que seu único filho, Agustín, apostador de rinha de galos, foi preso e morto pelo governo ditatorial que estava à frente da Colômbia. Havia sido acusado de distribuir panfletos com ideias contrárias à ditadura vigente. No entanto, ele deixou como herança para seus velhos pais um despenado e desnutrido galo de briga. De repente, o galo se torna o bem mais valioso do pobre casal. Eles já não têm mais nada para vender – ou para comer – a não ser o galo.

Vivendo com crises cada vez mais fortes de asma, a esposa do Coronel já não aguenta mais a fome e a miséria, já não suporta as esperanças vãs que seu marido nutre a respeito da carta que nunca chega. Ela insiste para que ele venda o galo – a única herança do filho, a única esperança que lhes resta. É aí que a história chega ao seu ápice, me deixando com o coração do tamanho de um grão de arroz.

Ao mesmo tempo em que acompanhamos o sofrimento do casal e desejamos que eles façam tudo que for possível para conseguirem sobreviver, não abrimos mão da esperança de que as coisas irão melhorar – o Coronel receberá a carta, terá a sua pensão garantida, e poderá manter o galo nas rinhas, como seu filho queria (mesmo sendo totalmente contra essa prática na vida real!).

Por isso “Ninguém escreve ao Coronel” não é apenas mais um drama familiar recheado de críticas ao Estado autoritário da Colômbia e a burocracia que marcou a história política do país. É uma história sobre esperança de dias melhores – sentimento representado claramente pelo galo, figura que, inclusive, compõe a capa do livro. Além de esperança, magra e maltratada como o pobre animal, o galo representa o filho morto do casal e a justiça que não lhe foi feita.

O Coronel, sem dúvidas, é um dos protagonistas mais tocantes com que me deparei até hoje na ficção. Ele mantém sua dignidade, honestidade e sensatez como grandes triunfos – o que não faz dele somente um bom personagem, mas um bom homem. O sentimento de que é esquecido todas as vezes em que o carteiro lhe nega a chegada da carta, não é suficiente para fazê-lo desistir – o que não significa que diversas questões e angústias não o dominem. O tempo para o Coronel parou, embora o tempo não tenha parado para ele. O tempo anuncia o fim de sua jornada e a de sua esposa. A consciência de que não possuem nada é aterradora e faz com que sintam a morte cada vez mais perto.

O “Ninguém” que faz parte do título é muito forte. O fato de que ninguém escreve ao Coronel reforça a ideia de esquecimento, de iniquidade, de que não há no mundo alguém que se importe com o bem-estar de uma triste família que se encontra presa em um eterno ciclo de espera, tristeza e decepção. São nesses detalhes que se encontram a crítica sutil de Gabo – característica que dá reconhecimento às suas obras. A ideia de um autoritarismo que esmaga seu povo, de uma burocracia que não tem fim, de uma triste história política que marcou não só a Colômbia, mas todos os países sul-americanos.

Ninguém escreve ao Coronel é uma história curta e com uma escrita objetiva. Entretanto, exige uma leitura aprofundada, onde o olhar deve ser apurado sobre a situação de um personagem que pode representar qualquer um de nós. A história de penúria misturada à velhice, montada por Gabriel García Márquez, parece ser um tema que retrata a nossa triste e explorada sociedade como nenhum outro.

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