Um show de mulher

Um show de mulher

Santinati
Autor Santinati
Textos
Coleção Textos

                             

O mundo artístico pode ser um ambiente muito machista, com maioria masculina em muitas áreas – como a musical – e homens ocupando posições de poder em produtoras, gravadoras e estúdios. Muitas mulheres ficam angustiadas e desmotivadas com essa situação, pois percebem que o espaço para elas nessa área é muitas vezes pequeno.

Mesmo com tantos desafios, a presença feminina tem se mostrado cada vez mais forte e poderosa nos últimos anos.

Entrevistei duas mulheres da indústria musical para entender como é a vida nesse meio, e elas nos contaram sobre alguns desafios e barreiras que superaram para chegar onde estão hoje em dia sem nunca desistir.

Uma delas é Mc Kelly Neriah, de 35 anos. Ela conta que percebeu seu amor pela música aos 10 anos, quando cantava no coral da igreja, e desde então não parou.

Repórter: Como você entrou no meio musical?

Mc Kelly: Cresci assistindo meu pai e meus tios tocarem moda de viola aos fins de semana nas reuniões de família, mas ingressei na carreira musical aos 16 anos, quando meu irmão montou um grupo de rap mirim, me chamaram para fazer um refrão, comecei então a ser convidada por vários grupos para fazer freelance. Em 2003, entrei para o grupo de rap Versão Popular, onde faço parte até os dias de hoje conciliando com meu trabalho solo e participações.

Repórter: Como é a vida de quem trabalha na área música?

Mc Kelly: Para nós que somos do Rap é sempre mais difícil, aqui no Brasil poucos são valorizados, principalmente para nós que somos do anonimato, quando conseguimos algum show pago nós usamos o cachê ou ajuda de custo para investir em mais trabalhos então é uma luta constante.

Repórter: Você sofreu algum tipo de preconceito?

Mc Kelly: O preconceito ainda existe, mas já foi pior. Era difícil ser negra, gorda, mulher, mc e da favela, às vezes quando conseguia um emprego por exemplo, não podia nunca dizer que cantava rap que todos me olhavam com outros olhos, às vezes até comentários infelizes como por exemplo: “cuidado com a carteira, a Kelly é envolvida com os manos do rap”, ou seja, um preconceito que todos tinham de que quem é do rap é maloqueiro, ladrão, vagabundo...

Repórter: Como as mulheres são tratadas no rap?

Mc Kelly: Quando comecei em 1999 mais ou menos, era muito mais difícil para nós mulheres, não éramos vistas com bons olhos no movimento, até porque praticamente nós tínhamos que usar roupas masculinas, engrossar a voz, falar de cada 10 palavras 9 gírias para tentar se inserir no meio e mesmo assim as vezes nos colocavam apenas para fazermos um ou outro refrão, não tínhamos muito valor, hoje mudou bastante, mas ainda tem muita coisa pra mudar, podemos ver que em flyer de eventos que sempre tem muito mais homens do que mulheres nas programações... Tem muita mulher com trabalhos ótimos! Mas os caras até para nos convidar para fazer algum trabalho usam a frase “vou dar uma oportunidade para você que é mulher”, isso já é uma forma de preconceito. Também estamos trabalhando, escrevendo letras, produzindo.

A cantora Isabella Almeida – mais conhecida como Mana Bella - de 27 anos - descobriu a paixão pela música dentro de uma igreja em Salvador. Há seis anos, persegue seu sonho em São Paulo. Nesta entrevista, conta sobre alguns dos desafios na área.

Repórter: Como é a vida de quem trabalha com música?

Mana Bella: É difícil, porque antes de começar a ganhar dinheiro com a música, primeiro você tem que perder, quer dizer, não é perder porque a gente tá investindo no nosso futuro, no nosso sonho mas precisamos de produção, divulgação, gravação...Então eu ainda tenho um trabalho que me mantém e aos poucos estou começando a fazer shows com um pequeno retorno financeiro, mas viver só da música eu não consigo. E infelizmente a gente sofre inúmeros preconceitos, primeiro por eu ser nordestina, negra, periférica e também por ser mulher, principalmente por estar numa vertente do hip-hop e rap, que é predominantemente masculino, então para você estar nesse meio e ser respeitada, tem que realmente mostrar para o que veio, estar na ativa, sempre lutando, compondo letras combativas dentro do meu lugar de fala (combato o feminicídio, o racismo e a intolerância), então você sempre tem que estar provando que é duas vezes melhor do que o cara que está ao seu lado e que as vezes não está fazendo isso por um sonho mas sim para ganhar dinheiro.

Repórter: Você sofreu algum tipo de preconceito?

Mana Bella: Uma vez fui em um evento e na hora que cheguei eu era a única mulher, eles simplesmente me barraram e falaram que não teria público e nem evento, mas independente do público, se for uma ou mil pessoas, o importante é passar a mensagem de resistência.

Repórter: Como as mulheres são tratadas em geral?

Mana Bella: As mulheres nesse meio ainda sofrem muito preconceito, as vezes eu chego em eventos e não tenho dj, nem back vocal, então eu entro com o meu pen drive e percebo os olhares, o apontar de dedo, e isso sempre cai por terra quando subo no palco e mostro para o que eu vim. Isso é o mais importante do que qualquer intriga, eu vim para salvar pessoas, o meu lugar de resposta é em cima do palco, com as minhas letras.

Mesmo com tantos desafios, nos últimos anos a presença feminina tem se mostrado mais forte e poderosa, antes sem o reconhecimento que mereciam, hoje elas percebem uma maior aceitação do público, mesmo que ainda exista certo preconceito.

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