O primeiro amigo a gente nunca esquece

“Soledad, aqui están mis credenciales”
... com esses versos, Jorge Drexler inicia
Soledad
, canção na qual ele empreende um diálogo com a solidão, companheira de todas as horas e de todos os momentos. Tenho a impressão que crescer é tornar-se, cada vez mais, sozinho. E não que isso seja ruim, mas não parece natural quando somos crianças.

A maior parte das crianças anseia por amigos, anseia por compartilhar o mundo com alguém que tenha a mesma percepção da realidade. 

Adultos são muitos complicados. Nós estamos sempre tornando as coisas difíceis, porque temos a mania, infeliz, de nos colocarmos, quase sempre, acima uns dos outros: importam os meus sentimentos, importam as minhas sensações, importam os meus sonhos. 

À medida que crescemos esse comportamento torna-se usual, tal como uma espécie de defesa perante as loucuras desse mundo.

Nem sempre foi assim. Muita gente, ao pensar em um amigo de infância, pensa em uma pessoa específica, um vizinho, um amigo da escola que estava sempre presente nas maiores aventuras. Outros têm amigos imaginários. Alguns ainda lembram de um cachorro ou de outro animal de estimação. 

Quando eu me lembro da minha infância o primeiro nome que vem à minha cabeça é Catarina. Catarina não era uma pessoa, Catarina eram cinco pessoas. Nós nos conhecemos no ensino fundamental e nos tornamos, antes dos 10 anos, inseparáveis. Fazíamos tudo juntos, de verdade. 

E éramos tão, mas tão amigas, que nos permitíamos brincar uma com a outra o tempo todo: ríamos dos nossos próprios defeitos, das primeiras e desajeitadas paixões. Compartilhávamos os problemas que tínhamos com nossos pais e irmãos, sonhávamos juntas: uma queria ser presidente do Brasil, a outra queria ser cientista, a outra desenhista.

Andávamos de bicicleta em ruas ainda pacatas, saíamos juntas para irmos ao centro nos finais de semana e compartilhávamos o ódio por algumas pessoas – porque amigo que é amigo não te deixa odiar sozinho. Chamávamos as mães umas das outras de tia e tínhamos a certeza de que ficaríamos juntas para sempre.

Ao final do ensino fundamental (antigo ginásio), os nossos caminhos começaram a se separar. O ensino médio, que a gente na época chamava de colegial, levou cada uma para caminhos diversos: um bebê que veio cedo, uma escola longe, uma moradia do outro lado do mundo. E assim a vida seguiu seu curso, mas as Catarinas mantêm, ainda hoje, um pedaço especial no meu coração, porque são parte do que eu hoje sou.

Vinte anos depois, a tecnologia tratou de nos unir novamente. Hoje uma de nós resolveu compartilhar no grupo virtual, de forma saudosa, a lembrança de que eu leria a Barsa para os meus filhos quando eles nascessem. 

Trinta anos depois, eu não leio a Barsa, mas essa lembrança, enviada através de um áudio direto do interior da França, me fez ter a certeza, cheia de saudade, de que tenho as melhores amigas do mundo. Parafraseando o Pequeno Príncipe, fiz delas minhas amigas e elas tornaram-se únicas no mundo e, por conta delas, nunca mais estarei sozinha. 

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