Queria ter um pingo da força que tenho hoje, na época da escola

Queria ter um pingo da força que tenho hoje, na época da escola

Nato
Autor Nato
Inquietudes
Coleção Inquietudes
Queria ter um pingo da força que tenho hoje, na época da escola

Em meio a uma brincadeira com um colega de trabalho, ele soltou a seguinte frase: “Vamos resolver isso então na saída”. A única solução para aquela brincadeira seria a “agressão”, propus então algo que estivesse ao meu alcance, já que não seria um bom adversário em uma briga: “Vamos fazer algo em que um dos dois pode ganhar, algo que está nas minhas capacidades. Vamos jogar Show do Milhão e ver quem acerta mais. Rimos depois do desafio aceito, e cada um voltou para o seu trabalho.

Apesar da brincadeira, não deixei de lembrar da época da escola, em como me sentia inseguro naquela época, com medo de entrar em uma briga e de ser agredido. Ainda hoje em dia, são inúmeros casos de brigas entre alunos, como se a única resposta possível para resolver algo fosse a agressão. E eu nunca fui dos fortões (rs), e muito menos conseguiria me defender.

Não posso deixar de pensar que mesmo na vida adulta, para alguns, a única resposta é a violência. Quantos casos que já ouvimos falar ou lemos em jornais sobre brigas de trânsito que acabaram em agressão física? Há alguns anos um homem tentou fazer uma ultrapassagem em uma rotatória e raspou seu carro no outro (como se tenta ultrapassar em uma rotária?). Mesmo estando errado, ao descer do carro, ele agrediu a motorista com um soco no rosto. Sem contar os inúmeros casos de violência contra a mulher, agressões a homossexuais, etc.

Talvez isso comece lá atrás, na forma como somos educados, na forma como as crianças lidam com as situações na escola. Elas podem ser muito cruéis umas com as outras (assim como os adultos, é claro), porém elas ainda são seres em formação e ainda dá tempo de ensinar que o caminho definitivamente não é isso.

Mas quando me refiro à força, não é a força física, mas sim no sentido figurado, força para lidar com as situações e crueldades do dia a dia na escola. Viver com medo não é legal. A escola pode ser e acaba sendo em muitos casos um ambiente tóxico para uma mente em formação. Uma “brincadeira”, um bullying, uma agressão pode ter consequências sérias na vida adulta.

Na escola, nossas diferenças são apontadas em forma de apelidos: “gordo”, “narigudo”, “magrelo”, são alguns exemplo dentro de muitos outros. Isso machuca, não é engraçado, e pode nos marcar para o resto da vida afetando a nossa estima, pois não iremos gostar dos nossos corpos e podemos nunca fazer as pazes com o espelho. E no fim das contas não existe corpo perfeito, cada um é de um jeito.

Tinha uma turma que adorava falar sobre eu ser gay, de como eu era afeminado, me chamavam de “veado”, inventavam histórias ao meu respeito, riam, se divertiam. E eu não tinha forças para responder, para falar “para, já chega, não gosto disso”. Eu era só uma criança, tinha dúvida sobre mim e sobre o mundo, não sabia sobre a minha sexualidade ainda, mas por não fazer parte dos padrões do que é ser “homem” na sociedade, fui ridicularizado. Uma vez um amigo foi agredido fisicamente por ser gay, o que aumentava mais ainda o meu medo.

Se eu pudesse voltar no tempo, teria agido de outra forma, mas a vida nos ensina ou nos obriga a sermos fortes. Hoje em dia, jamais deixo uma “piadinha” assim passar batida, defendo com unhas e dentes qualquer tipo de injustiça e sempre digo que esse tipo de coisa não é brincadeira, pois quem está sendo ridicularizado não está vendo graça alguma. 

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