Reflexões sobre jornalismo na cobertura de tragédias

Reflexões sobre jornalismo na cobertura de tragédias

Reflexões sobre jornalismo na cobertura de tragédias

14 de março de 2019.

Um massacre ocorreu em Suzano, cidade de São Paulo. A escola Raul Brasil foi tomada por terror quando dois adolescentes invadiram o local e deram início a violência que custou a vida de - até o momento em que escrevo este texto - dez pessoas. De uma hora para outra, vidas foram perdidas e muitas outras abaladas.

Dentro de tal cenário de pânico, estão aqueles que quase sempre passam despercebidos, aqueles que filmam, divulgam e editam – tudo para que o Brasil e o mundo possam ter acesso a cada informação que estava sendo liberada pelas autoridades competentes e outras fontes. São os profissionais de comunicação, aqueles que não descansam um minuto quando o assunto é se dedicar ao ofício que escolheram para si.

O problema começa quando, em meio a tanto sofrimento, os personagens que chamam a atenção são os jornalistas. Foi isso que aconteceu mais uma vez durante a cobertura de mais uma tragédia. Houve repórter invadindo o espaço de familiares e policiais que ainda estavam trabalhando para amenizar a situação, repórter correndo atrás da mãe de um dos assassinos fazendo perguntas incisivas e inconvenientes, diversos veículos de comunicação divulgando manchetes sensacionalistas e dando mais atenção aos assassinos do que às vítimas. Enfim, uma série de erros que envergonha qualquer jornalista que se orgulhe de sua profissão e a cumpra com ética. E não é a primeira vez. Em quase todas as coberturas de tragédias algo parecido acontece e vem chamando cada vez mais atenção.

Como estudante de Jornalismo, fiquei horrorizada com a falta de humanidade em tais abordagens, principalmente de repórteres dos veículos televisivos de grande audiência – e neste caso, também é um conjunto do trabalho de quem está operando a câmera. Não é isso que aprendo quando sento na sala de aula. Fala-se de ética, de humanidade, de respeitar a fonte e o público. Infelizmente o que pude observar hoje foi uma ausência total de todos esses princípios. E olhe que a cobertura está apenas começando, só Deus sabe que decepções ainda virão.

Logo que nos deparamos com essas cenas, é comum se colocar no lugar de quem está sendo abordado – aliás, é isso que todo jornalista deve fazer: pensar primeiro na fonte, em seguida na relevância que aquela abordagem pode ter para o público, e por fim, em seu trabalho, nas técnicas que devem ser utilizadas nessas situações. Pelo visto, nenhuma dessas etapas foi cumprida e mesmo tentando me pôr no lugar dessas fontes, com certeza não consegui chegar perto da dor que elas estavam sentindo – fossem familiares das vítimas ou os alunos que viram o massacre acontecer e conseguiram escapar com vida.

Mas em seguida, fiz o movimento contrário e me coloquei, com certa facilidade até, no lugar dos jornalistas. Não sei que tipo de formação cada um deles teve ou que tipo de pessoas são. Não sei como é trabalhar na organização que eles trabalham ou simplesmente como é trabalhar em redação de jornal – experiência que não tive até o momento. Tudo o que sei vem de meus aprendizados como pessoa e como futura profissional.

Não posso ignorar os fatos que aprendi na faculdade durante todos esses anos a respeito do funcionamento de uma redação. A pressão sobre o repórter é constante. Para um jornal que precisa vender sua notícia, o furo tem uma relevância enorme (e em minha humilde opinião, superestimada na maioria dos casos). Os editores, que passam o dia dentro da redação coordenando o trabalho dos repórteres, costumam fazer pressão em cima destes para que a notícia seja divulgada o mais rápido possível – e o que parece é que esquecem de se preocupar também com a qualidade dela. Mas o que vem ao caso é que o repórter, além de trabalhar sob a coordenação de um editor, também recebe uma pauta que deve ser seguida (nela contém informações sobre o assunto que será tratado na matéria, as fontes que devem ser abordadas e as perguntas que devem ser feitas). Todos esses procedimentos não ocorrem da forma como deveriam quando tragédias acontecem. Nesse caso, é comum que o repórter se veja tendo que improvisar. E aqui chegamos ao ponto que eu queria: nossos jornalistas não estão preparados para coberturas de tragédias, sejam elas quais forem.

Ninguém nunca está preparado para uma tragédia, principalmente uma desta dimensão, que acontece tão de repente e não há como prever. Mas não deve ser o caso de quem está constantemente lidando com comunicação. Acidentes acontecem o tempo todo, em maior ou menor grau. Saber lidar com a situação com humanidade e respeito é o mínimo que se exige de quem exerce essa profissão. Felizmente a sociedade está de fato apresentando essa exigência – através das redes sociais ficou muito mais fácil se mostrar indignado com atitudes de veículos de comunicação e de seus jornalistas. Não se adequar a essa demanda por humanidade hoje em dia, é sinônimo de não saber exercer sua profissão, e essa afirmação não está errada.

Ir atrás de exclusividade é a prioridade do momento dentro de jornais que precisam se preocupar com cada clique e assinatura. No atual cenário, em que o jornalismo se encontra em crise ao ver vários jornais fechando ou reduzindo o número de profissionais quando a demanda só aumenta, conseguir furos se tornou mais importante que qualquer outra questão, inclusive do próprio valor da notícia perante a sociedade. O jornalismo nada mais é que um serviço de informação ao povo, mas esse significado se perde quando uma das perguntas mais básicas que todo jornalista deve se fazer antes de cobrir algo (“qual a importância dessa informação para meu público?”) não é feita.

Obviamente há o argumento claro que a nossa sociedade é uma “sociedade do espetáculo”, termo cunhado pelo filósofo Guy Debord. Não é à toa que muitas fotos e vídeos explícitos, mostrando as cenas do massacre na escola e os corpos ensanguentados das vítimas, estão circulando por aí. As pessoas parecem gostar de ver a tragédia, de ver aquilo que é chocante, alimentando-se disso. Portanto, como não podem mostrar legalmente tais fotos ou vídeos, os veículos buscam outro tipo de sensacionalismo, aquele que é “permitido”, porém nada agradável.

A mídia tem o dever de passar uma imagem verossímil para a sociedade, e a consequência disso na maior parte das vezes, é educar o seu público. Uma sociedade que se alimenta do sofrimento alheio é uma sociedade doente e que precisa ser educada, remodelada. Se instituições que, teoricamente, possuem respeito e credibilidade, não fazem sua parte para mudar uma cultura tão mórbida – pelo contrário, a incita -, então é preciso que o exercício de suas atividades seja repensado.

O que estamos vendo são jornalistas cada vez mais robotizados, atuando no automático sem se pôr no lugar do outro. Sei bem pela minha experiência como estudante de Jornalismo em uma Universidade pública federal, que a formação nessa área deixa muito a desejar – e até onde tenho conhecimento, é algo alastrado por várias outras Universidades em todo o Brasil. Porém, não é preciso cursar ensino superior algum para que se tenha valores éticos e morais – é algo aderente à vivência em sociedade.

Diz-se há muito tempo que o Jornalismo é quarto poder dentro de uma democracia. Se ele é realmente o quarto poder, então não escapou da podridão, assim como os outros três também não escaparam. Em um momento onde o fazer jornalismo é tão necessário - quando estamos cercados por notícias falsas e conhecimentos fatalmente reduzidos - o sentido dessa função acabou se perdendo em meio a maratona da falta de empatia e compaixão com a dor do próximo, em um país onde mortes são comemoradas e politizadas, a fim de conseguir palanque para posicionamentos ideológicos.

Jornalismo é olhar o outro antes de nós mesmos. Esse significado se perdeu. Se o jornalismo não se reinventar e se reencontrar o quanto antes, só posso dizer que temo pelo futuro.

Seja o primeiro a curtir!

Comentários

avatar

As pessoas também curtiram

500x500
500x500