Saudades da infância, e o fim da infância

Saudades da infância, e o fim da infância

Saudades da infância, e o fim da infância

Todos nós amamos o milagre, o evento grandioso que rende boas histórias, como se só os milagres nos concedessem a dádiva da eternidade. Enquanto eu for lembrado, serei eterno, terei vivido. No fim, todos queremos ser artistas de cinema, o palco, as luzes, a admiração e a inveja alheia.

Penso que algumas das maiores histórias do mundo não foram contadas ainda. Talvez porque essas histórias sejam muito corriqueiras e não despertem tanta atenção ou talvez porque não nos consideremos personagens suficientemente bons e, na nossa banalidade, deixamos pra trás histórias incríveis.

Eu vim de lá

Cresci num bairro da periferia de São Paulo, criada por uma dona de casa com outros três filhos. Minha mãe me ensinou a andar, me ensinou a ler, me ensinou os trabalhos domésticos. Meu pai, metalúrgico, saía de casa muito cedo e voltava muito tarde. 

 E o dinheiro dava, basicamente, para as contas mais importantes. O supérfluo não existia: lá em casa, as crianças só iam ao mercado para, no auge dos anos 80, guardar lugar na fila enquanto os adultos passavam rapidamente pelos corredores, com seus carrinhos lotados, em uma corrida imaginária contra o funcionário responsável pela remarcação dos preços. Chocolates e balas não eram uma realidade ao final da compra. Brinquedos caros também não. E escândalo em público por conta disso, nem pensar.

Comer fora só se fosse no quintal

Os almoços eram sempre em casa, porque restaurantes eram lugares impossíveis para um assalariado. Os domingos eram dias de refrigerante, frango assado e roupa de missa – expressão que designava as nossas melhores roupas. A diversão semanal consistia em sentar, todas as tardes, no banco da pracinha da rua e ficar, até de noite, conversando com os amigos e comendo pipoca preparada na casa de algum deles. 

Ali surgiam as primeiras paixões, os primeiros amores, as histórias mais divertidas. Éramos livres quando podíamos sumir no mundo, mas ao mesmo tempo tínhamos horário definido para voltar para casa e evitar a bronca da mãe. Pintávamos as ruas em anos de Copa de Mundo, fazíamos festas juninas com os vizinhos, o dono da padaria nos conhecia, íamos a pé para o colégio e não estávamos o tempo inteiro mostrando a nossa vida ao mundo.

Tempos que não voltam mas levo na lembrança

Tenho saudades de um tempo em que contávamos uns com os outros de forma real e não virtual. Das casas com varanda e cadeiras nas calçadas, de gente de verdade. Ali se fizeram as histórias mais incríveis que eu conheci e as lembranças mais fortes e doces que carrego comigo ainda hoje, em forma de nostalgia e saudade. “No meu tempo era tudo mato”, diz o ditado, e querem saber, ainda hoje nada me fez tão feliz. 

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