Sci-fi na literatura: por onde começar?

Sci-fi na literatura: por onde começar?

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Sci-fi na literatura: por onde começar?

Ficção científica (ou sci-fi) é, na minha humilde opinião, uma das melhores coisas já inventadas em termos de entretenimento. Enquanto para alguns é apenas mais um gênero que compõe histórias cheias de imaginação, para mim é o retrato de uma era e usado como escapatória do louco mundo real. Desenvolvido no século XIX, o sci-fi reproduzia aquilo que os humanos costumavam pensar que seria o futuro. Era apenas o início dos mais variados avanços tecnológicos, onde o homem passava a se ver como uma extensão da máquina – na verdade a expressão é ao contrário, mas tudo bem.

Acostumada a consumir produtos audiovisuais voltados para ficção científica, dos mais antigos aos mais atuais, resolvi me voltar para outra paixão: literatura. A escrita unida ao sci-fi cumpre bem uma das características principais do gênero: exercitar a mente. Com riqueza de detalhes, fica muito mais fácil mergulhar numa história e cria-la em sua cabeça da forma como bem entender.

Depois de formar uma couraça rígida de leituras de ficção científica, recebi em minhas mãos o livro Chronos: Viajantes do Tempo, primeiro volume de uma trilogia escrita por Rita Walker, autora estreante. A sinopse me agradou logo de cara: uma garota chamada Katherine, cuja avó tem a habilidade de viajar no tempo – e não apenas isso, mas a tal avó veio do futuro escapando de uma perigosa ameaça, que de repente ressurge e faz com que todo o mundo que Kate conhece simplesmente desapareça. Devido à fragilidade da saúde da avó, sobra para Katherine a tarefa de viajar no tempo e impedir o poderoso vilão de cumprir seus objetivos.

“Viagem no tempo? Perfeito”, pensei, esquecendo totalmente que criar expectativas pode ser perigoso. A edição publicada no Brasil pela editora Darkside também (não) ajudou muito. Conhecida por fazer edições exclusivas e maravilhosas, a editora mais uma vez não decepcionou e hoje posso dizer que Chronos é o livro mais bonito que tenho na minha estante. Com um tom de roxo combinado com azul e uma enorme ampulheta brilhante, o livro me pegou de cara. Porém, na mesma medida em que a edição não deixou a desejar, o enredo deixou – e muito.

A ficção científica infelizmente acabou se perdendo em meio às vivências adolescentes de Kate. O namoro com Sam, o principezinho fofo da história, teve mais evidência que o próprio treinamento de Kate junto à avó para desenvolver as habilidades de viagem no tempo. A verdadeira ação só se desenrola nas últimas páginas e nem é o que posso chamar de clímax, porque foi muito aquém de qualquer enredo de ficção científica que se preze.

A partir dessa decepção, foi inevitável fazer a comparação entre Chronos e outros livros que ficção científica que já li. Antes de mais nada, devo reconhecer que compará-lo a outras obras é levemente injusto, considerando que este é o romance de estreia de Rita Walker, ou seja, ela ainda tem tempo e bastante potencial para se desenvolver como uma boa escritora do gênero. Também deve-se levar em conta que provavelmente quem está começando a ler ficção científica e não pôs expectativas em Chronos, acabe se deparando com uma história interessante. A partir daí surge a delicada questão: então Chronos é um bom livro para se começar a ler ficção científica?

Nunca vou poder dar essa resposta com precisão, justamente porque cada pessoa pode ter uma percepção diferente do que é um bom sci-fi, mas aqui pretendo mostrar o meu olhar. Sem responder exatamente à pergunta, vou falar de O livro do juízo final, escrito por Connie Willis em 1992. Willis é uma das maiores referências quando se fala de ficção científica e estou citando-a não apenas por isso, mas porque percebi que Chronos se inspirou bastante no universo criado por Willis. E menciono isso sem reprovação alguma, afinal estamos sempre nos inspirando em algo que veio antes, especialmente quando se trata de literatura.

A questão é que, diferente de Walker, Willis criou uma história baseada em relações e dramas sem deixar o sci-fi de lado, ao mesmo tempo em que falava sobre os medos e ansiedades da protagonista Kivrin, e seu professor, o sr. Dunworthy. Enquanto a primeira, sonhadora e imatura, viaja para a idade média e se expõe aos muitos perigos da época, o segundo se encontra no presente da história – o ano de 2054 –, enfrentando seu temor pela aluna que tem como uma filha, ao mesmo tempo em que tenta conter a grave infecção que se espalha pelo Reino Unido.

Graças a O livro do juízo final, Willis recebeu diversos prêmios, sendo a primeira escritora de ficção científica a ganhar alguns deles – antes mesmo que homens que também se dedicavam ao sci-fi pudessem recebe-los. Imagino que ser uma escritora mulher naquele tempo não deveria ser fácil, acrescente-se a isto ser uma escritora mulher de uma história cheia de aventuras, críticas à Igreja Católica, e um terrível e visionário futurismo.

“Quer dizer que O livro do juízo final é uma boa pedida para iniciar as aventuras no gênero?”. Bem, apesar de tudo o que falei sobre Willis e sua obra fantástica, não recomendaria este livro para quem está começando a ler sci-fi. Mesmo se tratando de uma história incrível, O livro do juízo final tem uma sensibilidade que não tenho certeza se todo mundo está pronto para encarar (é preciso se preparar para a ressaca pós-leitura, se é que me entende). Definitivamente não é um livro leve. É extremamente complexo em alguns pontos e tem um número de páginas que não costuma ser atrativo logo de cara – na edição lançada pela Suma de Letras ele conta com 573 páginas. No entanto, devo ressaltar que de forma alguma ele pode ser descartado para quem curte histórias do tipo.

Depois de tudo isso, vou chegar ao que realmente me interessa: a primeira leitura do meu ano de 2019, que foi composta por ninguém mais ninguém menos que Douglas Adams e seu livro O guia dos mochileiros das galáxias, primeiro volume de uma série de cinco livros e publicado pela primeira vez em 1979. O livro ganhou um filme homônimo em 2005, que até recomendo para quem curte uns efeitos bizarros e não tenha neuras com problemas de adaptação. Porém, o que recomendo, acima de tudo, é este livro. E SIM, ele é uma ótima escolha para começar a ler sci-fi.

Por todo o renome que Douglas Adams possui, não poderia ser diferente. Graças ao Guia do Mochileiro das Galáxias foi criado o Dia da Toalha (ou Dia do Orgulho Nerd), em 25 de maio, fazendo referência a uma das passagens do livro. E se recomendo este antes mesmo de terminar o segundo da série (O restaurante no fim do universo), é porque realmente vale a pena.

Com uma escrita leve e muito bem-humorada, Adams consegue prender qualquer um nas loucuras que cercam os personagens Arthur Dent e Ford Perfect, dois melhores amigos que se aventuram pelas galáxias após a terrível destruição da Terra. Em meio a tudo isso, eles descobrem porque a Terra precisou ser destruída e quais são os segredos que rondam o universo e as inúmeras raças que o habitam. A narrativa me fez gargalhar alto em diversas passagens e a escrita frenética de Adams fez com que eu me sentisse bastante confortável.

Enfim, eu acredito que de uma forma ou de outra, ler ficção científica – seja ela qual for – é sempre aconselhável. Mas se eu pudesse dar uma recomendação bem geral seria: não julgue um gênero na primeira tentativa, seja de forma boa ou ruim. Experimentar várias leituras sempre vai ser enriquecedor, e posso garantir que essa premissa é especialmente correta quando se trata de sci-fi. Com algumas palavras e um pouquinho de imaginação, você nem precisa sair do lugar para conseguir viajar no tempo ou no espaço. Allons-y (e se você não entendeu o por quê dessa saudação final, pensa um pouco na possibilidade de assistir doctor who, hein?). 

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